terça-feira, 5 de dezembro de 2017
Cada grão de areia me lembra uma estrela, uma vida, um sentimento. Os
sonhos percorrem as veredas das praias da vida enquanto a noite raia
junto a Lua que flutua no céu como uma aparição. Vê-se a prata de sua
luz derramada no oceano se encontrando com a figura mais sublime que
esse olhar avistara. Caminho até a beira, as ondas velam meus pés, a
sereia se aproxima. Seu corpo exala maresia e sua boca é um feitiço
infalível. Beijo-a. Meus lábios roçam sua alma que possui sabor de
peixe e de alga. Adentro o belo mar, percebo meu corpo estirado na
areia como que em transe, talvez apenas dormindo. A sereia desata o
vestido de coral e fazemos amor junto ao balanço da maré. Uma vida
realmente boa. O orgasmo é um estrondo de trovão, nossas almas são
relâmpagos, o desejo é um fogo ardente. Repete-se o ato até que a Lua se
afoga no horizonte e cede o firmamento para o Sol esculpir um novo dia.
Nasce a manhã. A alma regressa e meu corpo acorda. Olho para o mar,
sinto que algo aconteceu. Caminho lentamente de volta ao mundo dos
homens e percebo que eu simplesmente não sou um homem. Asas nascem nas
minhas costas e retorno voando para a praia, mas encontro um abismo, uma
fenda rasgada no chão dizendo para aquietar a mente e calar o corpo.
Recolho as asas, retiro as roupas, medito. Ouço estranhamente o som de
uma orquestra familiar. Abro os olhos. Eis que o mar renasce. A Lua se
posiciona novamente em seu lugar cativo da escura noite, sigo a rota de
seu rastro luminoso até a beirada onde quebram as ondas, a sereia
aparece. Dessa vez, há asas em suas costas. Com uma réstia de ar,
eleva-me por sobre suas asas e as penas me envolvem a alma. Alçamos vôo
para a terra do nada onde habita o senhor do tudo. Um casamento ele
executa. Onde tudo é possível, vive o amor junto aos sonhos, um zelando o
outro. Abro os olhos e acordo em meu quarto. O curioso é sentir que
algo significativo ocorreu durante o sono.
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