quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Eu vivo n'outra dimensão. Os meus dias parecem noites e o ar que respiro é como uma droga lícita. A música é o meu bálsamo, a poesia é um tesouro, a natureza é meu pão. O silêncio nos é tão vital quanto a água e a harmonia caminha conosco como que uma sombra. Sou o irmão mais novo do Sol, e apesar de não herdar seu calor, o meu frio também queima. O escorpião que se oculta na penumbra das grutas, o abutre rastreando comida, as estrelas do mar e do céu, são todos meus amigos. Talvez pareça o contrário, mas não há nada de especial em nós. Exceto pelo fato de que estamos alheios ao senso comum, e por isso, somos letais.
O rosto da dualidade está brilhando nos céus, seu fogo fátuo dissipa a unidade desse mundo. A sua voz, como que o eco de mil trovoadas, estará sempre estrondando nas entranhas dos seres humanos, para que estes se convertam em anjos, ou, consagrem-se demônios.
Posso sentir as batidas do meu coração informando que estou vivo. Sou hoje um humano e meu oxigênio é o dinheiro. No amanhã, renascerei como uma árvore. Viverei de luz, de ar, de terra, me hidratarei com a chuva e concederei sombra e frutos aos animais. O meu lar será uma enorme floresta e meu único dever será crescer no meu ritmo. Meu derradeiro momento nesse planeta será no corpo de um peixe estranho que vive isolado na escuridão de zonas abissais do oceano. Morrerei nadando, em paz, no silêncio, tendo como última visão a água ao meu redor como que um vislumbre do mar de pura energia de onde eu vim e para o qual voltarei.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Eu subo nas pontas das estrelas e desço nas lavas dos vulcões. Meu espelho reflete um outro ser, sou a borboleta que abre as asas pela primeira vez, sou o sereno da madrugada, sou a música que ecoa sem som quando propagada pelos pensamentos. Um suspiro cósmico me deu a vida. Um mistério inabalável me constrói assim como cria e as alcateias de astros que flutuam no espaço. Estrela cadente despencou, quisera me encontrar. Esquecera que estamos conectados à mesma substância, no mesmo tom e caminhando no mesmo passo. Somos a derrota da razão que se faz inerte quando tenta auscultar o infinito. Somos uma loucura, algo que nunca nasceu e que nunca morreu, como explicar? Sinta a sensação desse poema como que uma resposta.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Permita-me estar distante de ti, ó Deus do tempo. Num lugar sem calendários, horários, compromissos. Um lugar onde eu possa brincar com a vida como a quem brinca de escrever poesia, livre, sem medo de sorrir. Exila-me de ti, ó Deus do tempo. Conceda-me os mares da eternidade onde eu possa velejar tão sereno quanto as nuvens que flutuam nesse céu, que para mim, são como barcos de algodão deslizando numa seda azul. Livra-me do teu corpo espiralado e dos alçapões dos teus olhares. Deus do tempo! Esqueça-te de mim! Pois assim, escaparei de ti como fumaça, como a um sonho que escorrega quando tentam recorda-lo, como o tic-tac dos relógios antigos que marcam outros tempos, como o entardecer, como um beijo fugaz, como o próprio tempo.